Cannabis Medicinal — Farmacologia
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Fitocanabinoides: THC, CBD, CBG, CBN e outros —
Farmacologia e Aplicação Clínica
Os fitocanabinoides são os compostos ativos de Cannabis sativa que interagem com o Sistema Endocanabinoide humano. Compreender a sua farmacologia, mecanismos de ação, perfil de segurança e interações farmacológicas é indispensável para uma prescrição racional, segura e eficaz na prática clínica diária.
Índice de conteúdos
- Biossíntese: do CBGA aos canabinoides ativos
- Formas ácidas e descarboxilação
- THC: farmacologia, efeitos e segurança
- CBD: o modulador não psicotrópico
- Interações farmacológicas do CBD (CYP450)
- Canabinoides menores: CBG, CBN, CBC
- Variantes propílicas: THCV e CBDV
- O Efeito Entourage (Entourage Effect)
- Ratios clínicos THC:CBD — ferramenta de prescrição
- Algoritmo de decisão clínica
Biossíntese: Do CBGA aos Canabinoides Ativos
Os fitocanabinoides são metabolitos secundários de Cannabis sativa sintetizados exclusivamente nos tricomas glandulares da planta. A sua produção segue uma via biossintética precisa que parte de dois precursores metabólicos — o ácido hexanoico e o pirofosfato de geranilo (GPP) — convergindo num único composto central: o CBGA (ácido canabigerólico), designado como "o canabinoide-mãe".
— Módulo 2, Tema 2. Curso de Cannabis Medicinal para Profissionais de Saúde. Receta Cannabis, 2025.A partir do CBGA, três enzimas sintases específicas catalisam a síntese dos três principais canabinoides ácidos, que posteriormente são convertidos nos canabinoides neutros farmacologicamente ativos através da descarboxilação térmica:
Relevância clínica do CBGA: O CBGA não é apenas um precursor metabólico inerte — possui propriedades farmacológicas intrínsecas (anti-inflamatórias, antibacterianas e potencial neuroprotetor) que estão a ser ativamente investigadas. A proporção de CBGA convertida em THCA vs. CBDA vs. CBCA é geneticamente determinada pela expressão relativa de cada sintase, o que explica a variabilidade no perfil canabinoide entre as diferentes variedades de Cannabis.
Formas Ácidas e Descarboxilação: A Chave da Ativação
Um dos conceitos mais importantes — e frequentemente mal compreendidos — da farmacologia canabinoide é que a planta viva não contém THC nem CBD livres em quantidades expressivas. Contém os seus precursores ácidos carboxilados (THCA e CBDA), que são farmacologicamente distintos e não produzem os efeitos terapêuticos nem psicotrópicos das suas formas neutras. A conversão exige energia térmica: o processo de descarboxilação.
- Não psicoativos na sua forma ácida nativa
- Baixa permeabilidade da barreira hematoencefálica
- Propriedades próprias: anti-inflamatório, neuroprotetor, potente antiemético (CBDA)
- Presentes no sumo de Cannabis cru obtido a frio (raw cannabis juice)
- Investigação emergente sobre os seus efeitos terapêuticos independentes
THC: 157°C · CBD: 160–180°C
- Farmacologicamente ativos nos recetores CB1 e CB2
- Elevada penetração da barreira hematoencefálica (especialmente o THC)
- Ativação instantânea através da vaporização controlada
- Conversão espontânea lenta e incompleta na matéria crua à temperatura ambiente
- Conversão completa em preparações aquecidas e padronizadas (óleos, extratos galénicos)
Implicação clínica direta: Ao prescrever óleos ou extratos de Cannabis medicinal, é indispensável verificar se o produto foi integralmente descarboxilado (contendo THC/CBD ativos) ou se é um extrato cru (contendo THCA/CBDA). Os produtos não descarboxilados não produzirão os efeitos terapêuticos esperados do THC. A maioria dos medicamentos à base de canabinoides autorizados na Europa (Sativex®, Epidyolex®) utiliza formas neutras ativas.
THC (Δ⁹-Tetrahidrocanabinol): Perfil Farmacológico Completo
O Δ⁹-tetrahidrocanabinol (THC) é o principal canabinoide psicoativo de Cannabis sativa e o composto mais amplamente investigado da planta. A sua identificação estrutural e síntese total por Raphael Mechoulam e Yechiel Gaoni em 1964 inaugurou a farmacologia canabinoide moderna. Não obstante o estigma associado ao seu uso recreativo, o THC possui um perfil terapêutico extensamente fundamentado que valida a sua utilização clínica em indicações rigorosas sob vigilância médica.
- Analgesia: Dor neuropática, central e oncológica — modulação das vias nociceptivas ascendentes via CB1 espinhal e supraespinhal
- Antiemético: Controlo de náuseas e vómitos induzidos por quimioterapia — ação dirigida aos recetores CB1 na área postrema
- Orexígeno: Estimulação do apetite na caquexia oncológica e associada ao VIH/SIDA — ativação dos circuitos CB1 hipotalâmicos
- Espasmolítico: Atenuação da espasticidade na Esclerose Múltipla — relaxamento muscular mediado por vias CB1
- Hipnótico: Redução da latência do sono e consolidação da continuidade do repouso em doses baixas tituladas
- Agudos: Taquicardia sinusal, hipotensão ortostática, xerostomia, ansiedade e paranoia transitórias (particularmente em doentes sem experiência prévia)
- Cognitivos: Alteração reversível e dose-dependente da memória de curto prazo, atenção e tempos de reação
- Crónicos: Tolerância farmacodinâmica e potencial dependência (~9% dos utilizadores frequentes); síndrome de privação ligeira
- Síndrome de Hiperémese Canabinoide: Episódios cíclicos paradoxais de náuseas e vómitos associados a uso crónico intensivo
- Risco psiquiátrico: Possível precipitação de quadros psicóticos em indivíduos geneticamente suscetíveis (ex.: polimorfismos da COMT)
Antecedentes pessoais ou familiares de primeiro grau de psicose ou esquizofrenia · Cardiopatia isquémica instável ou arritmias não controladas · Gravidez e aleitamento · Idade inferior a 25 anos (exceto em indicações neurológicas específicas devidamente justificadas) · Hipersensibilidade comprovada aos canabinoides.
Metabolito ativo 11-OH-THC: Após a administração por via oral, a metabolização de primeira passagem no fígado (CYP2C9, CYP3A4) converte o THC em 11-hidroxi-THC (11-OH-THC), um metabolito ativo dotado de maior capacidade de transpor a barreira hematoencefálica e afinidade CB1 superior à da molécula original. Isto determina o início de ação retardado, a intensidade psicoativa reforçada e a duração clínica prolongada observadas com formulações orais (óleos e cápsulas) face à inalação.
Segurança cardiovascular: A baixa densidade de recetores CB1 no tronco cerebral previne o risco de depressão respiratória letal por sobredosagem de THC, estabelecendo uma margem de segurança respiratória muito superior à dos opioides. Todavia, a ativação de CB1 no sistema cardiovascular desencadeia taquicardia reflexa e hipotensão ortostática clinicamente relevantes em portadores de cardiopatia isquémica, insuficiência cardíaca ou sob medicação anti-hipertensora. A avaliação do risco cardiovascular é mandatória antes da prescrição de THC.
CBD (Canabidiol): O Modulador Não Psicotrópico
O canabidiol (CBD) é o segundo canabinoide mais abundante em Cannabis sativa e o alvo de maior interesse farmacológico e clínico na última década. Contrariamente ao THC, o CBD é desprovido de propriedades psicotrópicas inebriantes e exibe um perfil de segurança clínica favorável. A sua farmacologia é complexa e polialvo: atua em pelo menos 6 sistemas de recetores celulares distintos, fundamentando o seu largo espetro de ação terapêutica.
- Modulador alostérico negativo de CB1: Altera a conformação do recetor atenuando a ativação induzida pelo THC — substrato fisiológico da modulação da ansiedade e da taquicardia pelo CBD
- Agonista dos recetores 5-HT1A: Efeito ansiolítico e antidepressivo através da facilitação da neurotransmissão serotoninérgica
- Agonista dos canais TRPV1: Dessensibilização dos canais nociceptivos periféricos associada a efeitos analgésicos
- Inibição da FAAH: Retarda a degradação da anandamida, elevando o tónus endocanabinoide basal
- Antagonista do GPR55: Contribui para o controlo da excitabilidade neuronal (ação anticonvulsivante) e regulação óssea
- Epilepsia refratária pediátrica: Síndrome de Dravet, Síndrome de Lennox-Gastaut e Complexo de Esclerose Tuberosa — aprovação formal pela EMA e FDA (Epidyolex®)
- Perturbações de ansiedade: Ansiedade generalizada, perturbação de stress pós-traumático (PTSD) e fobia social
- Doenças inflamatórias crónicas: Artrite reumatoide e DII — sólida fundamentação pré-clínica, ensaios clínicos em curso
- Dor neuropática: Ação comprovada em associação com THC em ratio balanceado 1:1
- Perturbações do sono: Melhoria da qualidade do repouso noturno em contextos secundários a dor crónica ou ansiedade
Não produz depressão respiratória · Isento de potencial de abuso ou dependência física · Não gera tolerância farmacológica significativa · Efeitos secundários geralmente ligeiros: diarreia, fadiga, alterações do apetite (predominantemente em doses elevadas >300 mg/dia) · Principal risco clínico: interações farmacológicas por inibição das enzimas do complexo CYP450 — pormenorizadas na secção seguinte.
Interações Farmacológicas do CBD: O Sistema CYP450
A interação farmacocinética mais crítica do CBD na medicina prática reside na sua capacidade de inibir fortemente as isoenzimas CYP3A4 e CYP2C19 do sistema citocromo P450 hepático. Estas duas vias metabolizam aproximadamente 60% dos fármacos habitualmente utilizados na clínica. A inibição competitiva promovida pelo CBD pode aumentar substancialmente as concentrações séricas de medicamentos coadministrados, elevando a probabilidade de toxicidade.
| Fármaco Concomitante | Via Enzimática Afetada | Consequência Clínica | Monitorização Recomendada |
|---|---|---|---|
| Varfarina / Acenocumarol | CYP2C9 | ↑ INR — risco hemorrágico relevante | INR semanal na fase inicial de ajuste; redução de dose do anticoagulante |
| Clobazam | CYP3A4 / CYP2C19 | ↑ Concentrações séricas do metabolito ativo — sonolência profunda, ataxia | Reduzir a dose de clobazam em 25–50%; vigilância contínua do estado de vigília |
| Ácido Valproico (Valproato de Sódio) | Mecanismo não-CYP (sinérgico) | ↑ Transaminases — risco de lesão hepatocelular | Provas de função hepática mensais; rigor redobrado em doentes pediátricos |
| Tacrolímus / Ciclosporina | CYP3A4 | ↑ Níveis séricos — toxicidade renal e imunossupressão excessiva | Doseamento plasmático regular (TDM); ajuste posológico preventivo |
| Estatinas (sinvastatina, atorvastatina) | CYP3A4 | ↑ Biodisponibilidade sistémica — risco acrescido de miopatia e rabdomiólise | Monitorizar queixas musculares e dosear CPK; ponderar transição para estatina não metabolizada por CYP3A4 |
Princípio clínico essencial: Antes de prescrever CBD, o médico assistente deve rever sistematicamente o histórico farmacoterapêutico do doente para sinalizar fármacos de margem terapêutica estreita dependentes de CYP3A4 ou CYP2C19 (anticoagulantes orais, antiepiléticos, imunossupressores). A magnitude da interação é estritamente dose-dependente: em doses baixas de CBD (<150 mg/dia) o impacto é geralmente comedido, mas acentua-se significativamente em esquemas posológicos elevados (>300 mg/dia).
CBG, CBN e CBC: Os Canabinoides Menores com Potencial Clínico
Para além do THC e do CBD, Cannabis sativa sintetiza mais de 100 fitocanabinoides complementares. Designados coletivamente como "canabinoides menores" em virtude da sua menor concentração percentual na biomassa vegetal, possuem perfis farmacodinâmicos singulares e valor terapêutico emergente. Embora a validação clínica formal em ensaios controlados esteja em desenvolvimento inicial, os dados biológicos pré-clínicos são expressivos.
- Agonista dos recetores adrenérgicos α2 pré-sinápticos — efeito hipotensor e neuroprotetor
- Antagonista dos recetores 5-HT1A — diferenciação farmacológica face ao perfil do CBD
- Inibidor da recaptação neuronal de GABA — suporte para propriedades ansiolíticas
- Ação antimicrobiana direta (incluindo estirpes resistentes como MRSA)
- Glaucoma: Redução documentada da pressão intraocular (PIO) ao otimizar o fluxo de drenagem trabecular
- Doença Inflamatória Intestinal: Efeitos anti-inflamatórios mucosos em modelos animais de colite
- Neuroproteção: Preservação neuronal observada em modelos experimentais da Doença de Huntington
- Antibacteriano: Eficácia antibiótica comprovada contra microrganismos multirresistentes
Os dados decorrem prevalentemente da investigação pré-clínica (estudos in vitro e animais). Os ensaios clínicos em humanos são ainda pontuais. Dado que a planta em maturação converte rapidamente o CBG noutros canabinoides, a sua extração isolada é tecnicamente exigente e acarreta custos mais elevados.
- Origina-se por oxidação e degradação térmica não enzimática do THC ao longo do envelhecimento da planta
- Agonista parcial fraco dos recetores CB1 e CB2 (~10% da potência molecular do THC)
- Atividade comprovada sobre canais iónicos de dor TRPV2 e TRPA1
- Notada ação sedativa, fortemente potenciada pela presença conjunta de terpenos miorrelaxantes (ex.: mirceno)
- Insónia: Frequentemente utilizado no apoio ao sono, embora os dados clínicos controlados sejam escassos e heterogéneos
- Analgesia: Modulação nociceptiva em modelos de dor neuropática via recetores TRPA1
- Anti-inflamatório: Redução de mediadores inflamatórios em modelos de artrite
- Antibacteriano: Atividade antimicrobiana contra bactérias gram-positivas similar à do CBG
O efeito hipnótico do CBN é amplamente explorado no comércio e marketing, todavia a evidência clínica controlada em monoterapia humana é residual. A sonolência reportada com extratos envelhecidos provém com maior probabilidade da presença sinérgica de terpenos sedativos (mirceno, linalol) do que do CBN isolado.
- Agonista seletivo dos canais nociceptivos e inflamatórios TRPA1 e TRPV4
- Afinidade negligenciável para CB1 e CB2 (ausência absoluta de efeitos inebriantes)
- Inibição da recaptação celular de anandamida, prolongando a sua biodisponibilidade tecidual
- Modulação funcional da via serotoninérgica 5-HT1A
- Neurogénese adulta: Estimula a proliferação e diferenciação de células estaminais neurais
- Depressão: Resultados promissores em ensaios comportamentais pré-clínicos
- Dermatologia: Reduz a lipogénese sebácea e a inflamação tecidual no acne vulgar
- Analgesia sinérgica: Amplifica os efeitos antinociceptivos combinados com THC e CBD
O CBC é um dos canabinoides menores com maior relevância prospetiva nas áreas de neurologia e dermatologia. Todavia, os ensaios clínicos controlados no ser humano são quase inexistentes, sendo o seu uso atual otimizado através de preparações de extrato integral.
THCV e CBDV: As Variantes Propílicas de Interesse Emergente
As variantes propílicas são canabinoides estruturalmente homólogos aos canabinoides clássicos (THC, CBD) que se diferenciam pela cadeia alquílica lateral: apresentam uma terminação de 3 átomos de carbono (propilo) em substituição da cadeia clássica pentílica de 5 carbonos do THC e CBD. Esta pequena divergência conformacional produz comportamentos farmacológicos marcadamente distintos, com importantes desfechos clínicos.
- Doses baixas: Antagonista neutro CB1 — suprime o apetite, não psicoativo, ação biológica rápida
- Doses elevadas: Agonista parcial CB1 — psicoativo com cinética de ação mais rápida e menor semivida que o THC
- Agonista de recetores CB2 em todas as doses — benefícios anti-inflamatórios
- Interação farmacodinâmica com recetores TRPV1 e GPR55
- Diabetes tipo 2: Melhora a sensibilidade periférica à insulina e reduz a glicemia em jejum (ensaios de fase II)
- Obesidade / Síndrome metabólica: Inibição do apetite sem os efeitos depressogénicos dos antigos antagonistas sintéticos
- Epilepsia: Atividade anticonvulsivante demonstrada em ensaios pré-clínicos
- Doença de Parkinson: Propriedades neuroprotetoras e atenuação das discinesias motoras
O THCV constitui a molécula de Cannabis mais promissora para o tratamento da patologia cardiometabólica. A sua capacidade de otimizar a homeostase glicémica sem induzir o aumento do apetite típico do THC posiciona-o como um fármaco em investigação de elevado interesse.
- Perfil farmacológico análogo ao do CBD, mas com diferenças na afinidade e potência celular
- Agonista dos canais TRPV1 e TRPA1, atuando na estabilização de redes neuronais hiperativas
- Modulação dos circuitos de inibição GABAérgica (potencial ansiolítico)
- Isento de psicoatividade — sem ativação funcional do recetor central CB1
- Epilepsia: Efeito anticonvulsivante comprovado em modelos de crises farmacorresistentes
- Perturbações do Espetro do Autismo (PEA): Ensaios clínicos de fase II/III em curso focados no controlo comportamental
- Náuseas: Evidência antiemética documentada em ensaios laboratoriais
- Dor neuropática: Diminuição da hipersensibilidade mecânica dolorosa
O CBDV é alvo de investigação clínica avançada (fases II e III) direcionada para as crises epiléticas infantis e perturbações do neurodesenvolvimento. Apresenta excelente tolerabilidade, alinhada com o perfil do CBD isolado.
O Efeito Entourage (Entourage Effect): A Sinergia do Fitocomplexo
O conceito de "Efeito Entourage" (efeito comitiva), postulado por Raphael Mechoulam e Shimon Ben-Shabat em 1998 e subsequentemente fundamentado na clínica por Ethan Russo em 2011, preconiza que os múltiplos constituintes de Cannabis sativa operam concertadamente de forma sinérgica: o extrato integral da planta produz respostas terapêuticas superiores e com menor taxa de efeitos adversos do que qualquer dos seus princípios ativos tomados isoladamente. Esta cooperação farmacodinâmica orienta a escolha do tipo de produto prescrito.
O Efeito Entourage descreve a cooperação farmacodinâmica na qual o extrato completo de Cannabis manifesta uma eficácia clínica e janela terapêutica superiores à soma aritmética dos seus componentes individuais administrados em isolamento.
— Russo EB. Taming THC: potential cannabis synergy and phytocannabinoid-terpenoid entourage effects. Br J Pharmacol. 2011;163(7):1344-1364.- Mirceno: Sedativo, incrementa a permeabilidade da barreira hematoencefálica aos canabinoides e contribui com propriedades analgésicas diretas
- Limoneno: Ansiolítico e antidepressivo por interação com os recetores serotoninérgicos 5-HT1A e dopaminérgicos
- Linalol: Miorrelaxante e anticonvulsivante através da facilitação da neurotransmissão GABAérgica
- β-Cariofileno: Potente anti-inflamatório; trata-se do único terpeno natural que atua diretamente como agonista seletivo dos recetores CB2
- Pineno: Broncodilatador e inibidor da acetilcolinesterase; atenua os défices de memória de trabalho induzidos pelo THC
- Full Spectrum (Espetro Completo): Conserva integralmente a matriz biológica original de canabinoides, terpenos e flavonoides. Maximiza o Efeito Entourage. Contém THC (requer ponderação em contextos profissionais ou testes de rastreio toxicológico)
- Broad Spectrum (Espetro Alargado): Matriz vegetal fitoquímica completa da qual foi removido seletivamente o THC abaixo dos limites analíticos detetáveis. Garante sinergia sem induzir psicoatividade
- Isolado (Isolate): Fármaco purificado a mais de 99% (CBD ou THC). Sem Efeito Entourage, mas permite a dosagem ponderal miligramétrica exata sem variabilidade inter-lote
- Indicação prática: Na vasta maioria dos quadros crónicos em adultos, as formulações de espetro completo ou broad spectrum proporcionam um benefício clínico superior em dosagens substancialmente mais reduzidas
Evidência clínica do Efeito Entourage: Numa meta-análise clínica publicada por Pamplona et al. (2018) em doentes com epilepsia refratária, os extratos de Cannabis de espetro completo ricos em CBD permitiram atingir o controlo de crises com uma dose média quatro vezes menor do que o CBD purificado isolado (6,0 mg/kg/dia vs. 25,3 mg/kg/dia), registando-se concomitantemente uma frequência significativamente menor de efeitos secundários.
Ratios Clínicos THC:CBD — A Ferramenta Fundamental de Prescrição
O ratio ponderal THC:CBD é a variável operativa mais crítica na prescrição clínica de Cannabis medicinal. Rege o equilíbrio entre potência analgésica e tolerabilidade neuropsíquica, devendo ser selecionado com base na patologia diagnosticada, na suscetibilidade do doente e na sua experiência pregressa com canabinoides. O paradigma de titulação consagrado internacionalmente é "Start low, go slow": iniciar com a dose mínima eficaz e proceder a incrementos graduais a cada 3 a 7 dias.
Perfil de doente: Adultos com experiência anterior documentada, sem histórico psiquiátrico pessoal/familiar e função cardiovascular estável.
Perfil de doente: Linha de partida preferencial para a maioria dos adultos. O CBD mitiga a taquicardia, a ansiedade e os efeitos adversos do THC.
Perfil de doente: Pediatria, doentes suscetíveis aos efeitos psicotrópicos ou indivíduos cuja atividade profissional exige estado de vigília inalterado.
| Condição Clínica | Ratio Recomendado | Racional Farmacológico | Medicamento ou Preparado de Referência |
|---|---|---|---|
| Epilepsia refratária (Dravet/LGS) | CBD Dominante (<1:20) | O CBD exerce ação anticonvulsivante intrínseca; o excesso de THC pode diminuir o limiar convulsivo | Epidyolex® (solução oral de CBD isolado) |
| Dor neuropática crónica | Balanceado (1:1) | Sinergia antinociceptiva THC+CBD; o CBD dissipa os efeitos disfóricos centrais do THC | Sativex® (nabiximols pulverização oromucosa 1:1) |
| Espasticidade na EM | Balanceado (1:1) | Indicação formal comprovada do Sativex® — evidência clínica de nível I | Sativex® (nabiximols pulverização oromucosa 1:1) |
| Náuseas induzidas por quimioterapia | THC Dominante (>10:1) | O THC é o agente canabinoide antiemético mais eficaz por ativação dos recetores CB1 no bolbo raquidiano | Dronabinol, Nabilona |
| Ansiedade / PTSD | CBD Dominante (<1:10) | Propriedades ansiolíticas do CBD via 5-HT1A; o THC em doses elevadas é suscetível de precipitar ansiedade paradoxal | Óleos galénicos magistrais padronizados em CBD |
| Insónia Crónica | THC Dominante + CBN | O THC encurta a latência de início do sono; o CBN e os terpenos miorrelaxantes consolidam a manutenção do sono | Formulações magistrais personalizadas |
Algoritmo de Decisão Clínica para a Prescrição de Canabinoides
A prescrição de Cannabis medicinal requer uma abordagem metodológica estruturada que integre os objetivos terapêuticos definidos, a triagem de contraindicações individuais, a seleção correta da composição/via e um protocolo de titulação gradual e monitorizado. O algoritmo de 4 passos sintetiza este processo com base nas melhores evidências disponíveis.
Enquadramento regulamentar (Real Decreto 903/2025): A prescrição de Cannabis para fins medicinais em Espanha rege-se pelo Real Decreto 903/2025, que disciplina a elaboração e dispensa de preparações magistrais padronizadas e medicamentos autorizados (Sativex®, Epidyolex®). O médico prescritor assume a responsabilidade direta pelo diagnóstico, posologia e monitorização do doente. Deve consultar-se sempre a legislação em vigor previamente à prescrição.
Tabela Comparativa dos Principais Fitocanabinoides
| Canabinoide | Psicoatividade | Alvos Recetoriais Primários | Aplicação Clínica Principal | Grau de Evidência |
|---|---|---|---|---|
| THC | Elevada ✗ | Agonista parcial CB1/CB2 | Analgesia, espasticidade, CINV, estimulação do apetite | Elevado (Múltiplos ensaios de fase III) |
| CBD | Nula ✓ | Modulador alostérico CB1, 5-HT1A, TRPV1, GPR55 | Epilepsia refratária, ansiedade, inflamação sistémica | Elevado (Aprovações formais EMA/FDA) |
| CBG | Nula ✓ | Agonista recetores α2-adrenérgicos, antagonista 5-HT1A | Glaucoma, DII, neuroproteção (potencial) | Baixo (Preponderantemente pré-clínico) |
| CBN | Mínima ≈ | Agonista parcial fraco CB1/CB2, TRPA1/TRPV2 | Sedação, perturbações do sono, analgesia periférica (potencial) | Muito baixo (Dados clínicos divergentes) |
| CBC | Nula ✓ | Agonista TRPA1/TRPV4, inibidor da recaptação de anandamida | Neurogénese, depressão, acne inflamatório (potencial) | Baixo (Preponderantemente pré-clínico) |
| THCV | Dose-dep. ⚡ | Antagonista CB1 (baixa dose) / Agonista (alta dose) | Diabetes tipo 2, obesidade, dismetabolismo | Moderado (Ensaios clínicos de fase II) |
| CBDV | Nula ✓ | Agonista TRPV1/TRPA1, modulador GABA | Epilepsia refratária, perturbações do espetro do autismo | Moderado (Ensaios clínicos de fase II em curso) |
Pontos-Chave para a Prática Médica
Referências Científicas
- Mechoulam R, Gaoni Y. A total synthesis of dl-Δ1-tetrahydrocannabinol, the active constituent of hashish. J Am Chem Soc. 1965;87(14):3273–3275. doi:10.1021/ja01092a065
- Russo EB. Taming THC: potential cannabis synergy and phytocannabinoid-terpenoid entourage effects. Br J Pharmacol. 2011;163(7):1344–1364. doi:10.1111/j.1476-5381.2011.01238.x
- Pamplona FA, da Silva LR, Coan AC. Potential clinical benefits of CBD-rich Cannabis extracts over purified CBD in treatment-resistant epilepsy: observational data meta-analysis. Front Neurol. 2018;9:759. doi:10.3389/fneur.2018.00759
- Devinsky O, et al. Trial of cannabidiol for drug-resistant seizures in the Dravet syndrome. N Engl J Med. 2017;376(21):2011–2020. doi:10.1056/NEJMoa1611618
- Whiting PF, et al. Cannabinoids for medical use: a systematic review and meta-analysis. JAMA. 2015;313(24):2456–2473. doi:10.1001/jama.2015.6358
- Iffland K, Grotenhermen F. An update on safety and side effects of cannabidiol: a review of clinical data and relevant animal studies. Cannabis Cannabinoid Res. 2017;2(1):139–154. doi:10.1089/can.2016.0034
- Morales P, Hurst DP, Reggio PH. Molecular targets of the phytocannabinoids: a complex picture. Prog Chem Org Nat Prod. 2017;103:103–131. doi:10.1007/978-3-319-45541-9_4
- Jadoon KA, et al. Efficacy and safety of cannabidiol and tetrahydrocannabivarin on glycemic and lipid parameters in patients with type 2 diabetes. Diabetes Care. 2016;39(10):1777–1786. doi:10.2337/dc16-0650
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